Foram dois anos olhando para a mesma parede, tentando, caindo, voltando e aprendendo no caminho. Até que, em um dia de sol na Serra do Cipó, Felipe Ho chegou ao topo da Gran Reserva.
Aos 26 anos, o montanhista e escalador acaba de completar uma das vias mais desafiadoras de sua trajetória: uma via de grau 9a (11c brasileiro), com cerca de 40 movimentos e que exige precisão, força e, principalmente, saber encontrar o ritmo certo.
Mas, para entender o tamanho dessa conquista, é preciso voltar um pouco no tempo.
Uma paixão que ganhou novos significados
Felipe se apaixonou pela escalada e, com o tempo, percebeu que o esporte tinha espaço para ocupar muito além das paredes e montanhas.
Um dos momentos mais importantes dessa relação aconteceu quando ele entendeu que aquilo que fazia porque lhe trazia felicidade também poderia inspirar outras pessoas.
Foi quando passou a se sentir parte de uma comunidade.
A escalada, para Felipe, é um lugar de troca. De conhecer pessoas, compartilhar experiências e também devolver um pouco para o esporte que tanto significa para ele.
E a Gran Reserva acabou se tornando parte dessa história.
Dois anos com a Gran Reserva
A relação com a via começou há cerca de dois anos. Desde então, foram muitas tentativas, algumas que chegaram perto, outras que terminaram antes do esperado e muitas idas e vindas até a Serra do Cipó.
Como o próprio Felipe resume: “o tamanho da minha frustração equivale ao tamanho do meu sonho”.
E não faltaram momentos para colocar isso à prova.
Em uma das tentativas, ele caiu literalmente na última agarra. Em outro momento, precisou parar por alguns dias depois de ficar doente. Teve também aqueles dias em que simplesmente não encaixava.
Faz parte.
Para Felipe, escalar uma via como a Gran Reserva é também aprender a lidar com a frustração. É entender que nem sempre vai acontecer quando você quer e que, muitas vezes, o melhor que pode fazer é voltar no dia seguinte e tentar de novo.

Encontrar o ritmo
A Gran Reserva tem cerca de 40 movimentos e uma combinação que faz cada parte do percurso pedir algo diferente.
Tem precisão. Tem decisão. Tem momentos em que é preciso ser delicado com os pés e acompanhar o ritmo da via. E também tem aqueles em que o corpo precisa responder com força e movimentos mais longos.
Encontrar esse equilíbrio foi parte importante do projeto.
E talvez seja justamente isso que torne a via tão especial para Felipe. Ela não exige apenas que você seja forte. Pede atenção, paciência e capacidade de adaptação.
Coisas que, aliás, vão muito além da escalada.
Nem tudo está sob nosso controle
Felipe conta que costuma gostar de resolver as coisas do próprio jeito e fazer com que tudo aconteça como imaginou.
A escalada tem outro plano.
“Ela sempre me mostra que eu não tenho controle de absolutamente nada.”
Uma tentativa pode começar bem e terminar poucos movimentos depois. O corpo pode não responder como você esperava. O clima muda. A cabeça muda. A via continua ali, mas você chega diferente a cada vez.
Aprender a lidar com isso foi uma das grandes experiências de Felipe durante esses dois anos.
Porque, no fim, nem tudo acontece como a gente planeja. E talvez parte da graça esteja justamente em descobrir o que fazer quando não acontece.
Até que deu certo
Depois de tanto tempo, chegou o dia.
Felipe voltou para a Gran Reserva, começou a subir e, dessa vez, tudo encaixou.
A comemoração veio ainda na base da parede, junto de quem acompanhava aquele projeto. E não era para menos: aquela era a terceira via de grau 9a de Felipe — e a mais difícil entre elas.

Mais do que colocar o nome em uma nova via, ele estava encerrando um projeto que o acompanhou por dois anos.
“Me ofereceu uma experiência incrível de crescer, me conhecer melhor e lutar o máximo até o final”, conta.
Uma conquista que vai além do topo
Apesar de ser uma conquista individual, Felipe não vê a escalada dessa forma.
Quando fala sobre a Gran Reserva, ele também lembra da comunidade que existe por trás do esporte. Foi assistindo a #TropicalLines, por exemplo, que surgiu a vontade de conhecer e provar algumas das vias apresentadas no filme.
Para ele, o trabalho de Felipe Camargo ajudou a aproximar escaladores brasileiros de vias muito difíceis que estão por aqui — e isso tem um valor enorme para quem vive esse universo.
Por isso, chegar ao topo da Gran Reserva também é uma forma de continuar essa história.
Uma pessoa sobe. Mas muita gente acompanha, torce, compartilha e se inspira.
E agora?
A Gran Reserva já faz parte da trajetória de Felipe. Mas está longe de ser o fim dela.
Hoje, as competições são seu principal foco, e ele ainda sente que tem muito para descobrir sobre a própria capacidade.
Talvez seja esse um dos melhores retratos da escalada: você passa anos tentando chegar a um lugar e, quando finalmente chega, já começa a olhar para o que vem depois.
No caso do Felipe, ainda tem muita parede pela frente.
Confira a jornada completa no nosso Youtube.